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Tem índio aqui?


Tem índio aqui? Cadê os índios daqui, professora? Essas são algumas indagações que são feitas por alguns alunes das escolas públicas e privadas que recepciono no sítio histórico e ecológico Gamboa do Jaguaribe. Essas perguntas nos sinalizam muitas coisas, e uma delas é a ausência de formação sobre a diversidade dos nossos povos. Em mais um 19 de Abril as mídias e as escolas resolvem fazer aquela famigerada homenagem. Como foi a “homenagem” na escola dos seus filhos?


A consequência das desinformações geradas pela falta de formação e essas “homagens” é a estereotipação que limita-se àquela imagem reproduzida nos livros didáticos, HQ’s, literaturas infantis, desenhos animados, filmes e tantas outras convergências midiáticas informativas que apenas divergem e são desconexas da nossa realidade. E o resultado vai para além dos cocares de cartolina e pinturas de tinta guache no rosto dos pequenos.


Então, ao me deparar com tal questionamento citado acima, confesso que algumas vezes fico na dúvida se respondo olhando para as professoras ou se olho para os alunes. Mas rapidamente compreendo que ambas as partes não são culpadas pela pergunta, que no fundo soa até retórico para eles e elas. A culpa é do sistema colonial que está em vigor há mais de 522 anos, visando nosso apagamento.


Durante as explicações algumas crianças chegam a ser muito questionadoras e isso não é nada ruim. Pelo contrário, estão abertas às informações. No final, compreendem e aceitam outras narrativas, quando apresentadas a partir do uso da ludicidade e um diálogo mais próximo com os mais novos, sem apelar para termos difíceis de serem compreendidos.


Diferente de uma criança, a maioria dos professores defendem seu posicionamento colonizado e colonizador e não abrem mão dos conhecimentos eurocêntricos que aprenderam durante toda a vida, pois é um lugar confortável. Apresentar os fatos como realmente aconteceram é deslegitimar tudo que viram na formação, então, não é de se esperar humildade e resiliência, desta parcela de docentes, em reconhecer que é necessário rever seus aprendizados através de uma ótica decolonial.


É preciso tensionarmos sobre a efetividade da Lei 11645, de 2008, que obriga as instituições de ensino a trabalhar as diretrizes no que diz respeito às histórias e culturas afrobrasileiras e indígenas em sala de aula. Enquanto essa obrigatoriedade permanecer apenas no papel, continuaremos ouvindo essas reproduções distorcidas sobre nós, povos indígenas, que nos cristalizam de uma forma retrógrada.


Para além da existência deste dispositivo legal e suas ações, as formações para os docentes são fundamentais para que desinformações não sejam replicadas, a fim de que as homenagens como as que vemos sobre nós sejam repensadas. Nós pais, também temos o direito de questionar sobre como está sendo a prática desta e de outras Leis em sala de aula.


Precisamos dialogar de forma crítica quando nos deparamos com estas homenagens feitas pela maioria destas escolas. Essas instituições públicas e privadas continuam reproduzindo estereótipos que atrasam e engessam nossa existência, em vez de buscar formações a partir das narrativas dos nossos povos.


Texto por Fábio de Oliveira (@taangahara)

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